Como reconhecer
A tão falsa gratidão
Que a mim é submetido
Por alguma coisa que pensei
Existir
Já se vai como hora marcada
Para se dar por satisfeito
Por muito pouco chegamos ao julgamento
De quem nos vê
E assisto a tudo sem volúpia na boca
De beijo parido das cinzas
De cor cinza
Nem preto
Nem branco
Cinza
Para ser jogado em algum lugar
Desejado
Por quem jaz
Para saber
A direção do vento
Manchado pelo cinza esvoaçado
Cumprindo o desejo do outro
Em algum céu
Hedonismo sem efeito
Depois que vamos
Uma caminhada sem partida
Sem concorrência
Ninguém compete quando se coloca em jogo
A memória da própria vida
A vingança da velhice é perder a memória
Nós é que sofremos
Por guardarmos as lembranças
Do outro
Pois o problema de quem tem história
Não é perdê-la
É lembrá-la
Na solidão da imobilidade
Da gratidão dos outros
Dos passos pequenos
Sentados na maior parte do tempo
Tempo sem tempo
Previsto pela falta de tempo
É melhor esquecer
Wilton Azevedo 2011